Hoje volto aos muros. Mas hoje quero escrever
sobre o que penso ser o maior dos muros. O da consciência, o do pensamento, o
da nossa existência.
Há uns anos, li este conto que reproduzo, num
livro de Jorge Bucay, psicanalista argentino, que agora reproduzo:
“Esta história representa para mim o
símbolo da corrente que une as pessoas através da sabedoria dos contos.
Contou-ma uma paciente que a tinha ouvido, por sua vez, da boca de um ser
maravilhoso, o padre crioulo Mamerto Menapace. Assim como a reproduzo agora,
ofereci-a uma noite a Marce e a Paula.
Aquela cidade não era habitada por
pessoas, como todas as outras cidades do planeta.
Aquela cidade era habitada por poços.
Poços vivos… mas afinal poços.
Os poços distinguiam-se entre si não
somente pelo lugar onde estavam escavados, mas também pelo parapeito (a
abertura que os ligava ao exterior).
Havia poços ricos e ostensivos com
parapeitos de mármore e metais preciosos; poços humildes de tijolo e madeira, e
outros mais pobres, simples buracos rasos que se abriam na terra.
A comunicação entre os habitantes da
cidade fazia-se de parapeito em parapeito, e as notícias corriam rapidamente de
ponta a ponta do povoado.
Um dia, chegou à cidade uma «moda» que
certamente tinha nascido nalgum pequeno povoado humano.
A nova ideia assinalava que qualquer ser
vivo que se prezasse deveria cuidar muito mais do interior do que do exterior.
O importante não era o superficial, mas o conteúdo.
Foi assim que os poços começaram a
encher-se de coisas.
Alguns enchiam-se de jóias, moedas de
ouro e pedras preciosas. Outros, mais práticos, encheram-se de
electrodomésticos e aparelhos mecânicos. Outros ainda optaram pela arte, e
foram-se enchendo de pinturas, pianos de cauda e sofisticadas esculturas
pós-modernas. Finalmente, os intelectuais encheram-se de livros, de manifestos
ideológicos e de revistas especializadas.
O tempo passou.
A maioria dos poços encheu-se a tal
ponto que já não podia conter mais nada.
Os poços não eram todos iguais, por
isso, embora alguns se tenham conformado, outros pensaram no que teriam de
fazer para continuar a meter coisas no seu interior…
Um deles foi o primeiro. Em vez de
apertar o conteúdo, lembrou-se de aumentar a sua capacidade alargando-se.
Não passou muito tempo até que a ideia
começasse a ser imitada. Todos os poços utilizavam grande parte das suas
energias a alargar-se para criarem mais espaço no seu interior. Um poço,
pequeno e afastado do centro da cidade, começou a ver os seus colegas que se
alargavam desmedidamente. Ele pensou que se continuassem a alargar-se daquela
maneira, dentro em pouco confundir-se-iam os parapeitos dos vários poços e cada
um perderia a sua identidade…
Talvez a partir dessa ideia, ocorreu-lhe
que outra maneira de aumentar a sua capacidade seria crescer, mas não em
largura, antes em profundidade. Fazer-se mais fundo em vez de mais largo.
Depressa se deu conta de que tudo o que tinha dentro dele lhe impedia a tarefa
de aprofundar. Se quisesse ser mais profundo, seria necessário esvaziar-se de
todo o conteúdo…
A princípio teve medo do vazio. Mas,
quando viu que não havia outra possibilidade, depressa meteu mãos à obra.
Vazio de posses, o poço começou a
tornar-se profundo, enquanto os outros se apoderavam das coisas das quais ele
se tinha despojado…
Um dia, algo surpreendeu o poço que
crescia para dentro. Dentro, muito no interior e muito no fundo… encontrou
água!
Nunca antes nenhum outro poço tinha
encontrado água.
O poço venceu a sua surpresa e começou a
brincar com a água do fundo, humedecendo as suas paredes, salpicando o seu parapeito
e, por último, atirando a água para fora.
A cidade nunca tinha sido regada a não
ser pela chuva, que na verdade era bastante escassa. Por isso, a terra que
estava à volta do poço, revitalizada pela água, começou a despertar.
As sementes das suas entranhas brotaram
em forma de erva, de trevos, de flores e de hastezinhas delicadas que depois se
transformaram em árvores…
A vida explodiu em cores à volta do poço
afastado, ao qual começaram a chamar «o Vergel».
Todos lhe perguntavam como tinha
conseguido aquele milagre.
— Não é nenhum milagre — respondeu o
Vergel. — Deve procurar-se no interior, até ao fundo.
Muitos quiseram seguir o exemplo do
Vergel, mas aborreceram-se da ideia quando se deram conta de que para serem
mais profundos, se tinham de esvaziar. Continuaram a encher-se cada vez mais de
coisas…
No outro extremo da cidade, outro poço
decidiu correr também o risco de se esvaziar…
E também começou a escavar…
E também chegou à água…
E também salpicou até ao exterior
criando um segundo oásis verde no povoado…
— Que vais fazer quando a água acabar? —
perguntavam-lhe.
— Não sei o que se passará — respondia
ele. — Mas, por agora, quanto mais água tiro, mais água há.
Passaram-se uns meses antes da grande
descoberta.
Um dia, quase por acaso, os dois poços deram-se
conta de que a água que tinham encontrado no fundo de si próprios era a mesma…
Que o mesmo rio subterrâneo que passava
por um inundava a profundidade do outro.
Deram-se conta de que se abria para eles
uma vida nova.
Não somente podiam comunicar um com o
outro de parapeito em parapeito, superficialmente, como todos os outros, mas a
busca também os tinha feito descobrir um novo e secreto ponto de contacto.
Tinham descoberto a comunicação profunda
que somente conseguem aqueles que têm a coragem de se esvaziar de conteúdos e
procurar no fundo do seu ser o que têm para dar…”
De facto, ao longo dos tempos andamos à
procura do nosso fundo, da nossa razão de viver, à procura de nós, à procura da
Vida!
Este é talvez dos maiores muros que
construimos, e agudizado nas ultimas decadas. Eu confesso-me. Tenho tido
momentos na minha Vida, em que construi os muros que me separaram da Mesma. Os
medos, as revoltas, os desejos infundados, os sonhos perdidos… sei lá, tanta
coisa me levou a separar da minha existência. E o que fiz nesses momentos?
Tornei-me prisioneiro do exterior. Prisioneiro do consumo para uma satisfação
inexistente. Prisioneiro de uma fonesta sensação de procurar as respostas nos
outros, nas ideias alheias, nos seus julgamentos. Perdi-me da minha consciencia
e entreguei-me à consciencia vazia, ao irreal prazer do materialismo. Passei a
fazer parte de uma estatistica, mais um numero.
É este o muro dos muros. 25 anos após
ter acompanhado a queda de um muro que separou familias, consciencias,
sentimentos, separou futuros, sinto que temos um dos piores muros alguma vez
criados, o da nossa própria existencia. Vivemos cada vez mais pela aparencia,
reduzidos à dor da existencia, à procura no exterior de respostas, soluções que
nos conduzam à saida. E o rio, no entanto, corre dentro de nós. E é esse mesmo
rio que nos une, como pessoas, como cidadãos, como culturas, como vidas.
Mas teimamos em tentar ser mais um do
enorme rebanho formatado de gente sem pensamentos, sem consciencias
individuais, separados, egoistas, fechados entre os seus próprios muros. Uma
pessoa more de fome lá longe, e nós sentimos piedade. Alguém dorme na rua e nós
observamos o coitadinho. Alguém cai em dor na rua, e nós fechamos os olhos e
desviamo-nos dele. Alguém sofre com uma doença grave e nós parecemos automatos
a parafrasear clichés de pena e desejos de a doença estar longe de nós. No
entanto, queremos saber tudo da vida dessa pessoa, para sermos uma espécie
masoquista de pensamento generalizado: “Coitado(a)…” Somos inresponsáveis ao julgar
os que ajudam, não acreditando na boa vontade, independente do que se possa
ganhar ou não, alguém o faz. Somos estupidos a misturar a politica com o
humanismo.
Nós somos tão crueis com a Vida, que
chegamos a comprar animais para os mostrarmos aos outros e depois são
abandonados, na rua, sem destino, perdidos.
Somos tão crueis que usamos os animais
para nos distrairmo-nos do tempo.
Somos tão dependentes da sociedade, que
neste momento procuramos dizer o que fica bem, o politicamente correcto, do que
darmos uma opinião verdadeira e sentida.
Somos tão prisioneiros que vivemos para
sobreviver em tudo, nas relações, no trabalho, no dia a dia, na sociedade,
submissos à ideia de perda, de ficarmos reféns da falta. É repseitável todo e
qualquer sofrimento de quem perde de verdade, mas falo da submissão de
pensarmos que temos de deter para sempre, custe o que custar…
Andamos tão perdidos, que procuramos
mais tempo para vivermos, independente das condições que se viva, temos de ser
quase eternos. No entanto, nem damos conta que criamos um mundo que cada vez
mais vai encurtando o caminho até ao fim. Estamos enterrados em problemas
ambientais, em problemas socio-economicos, em problemas culturais, divididos
pelo dinheiro, divididos pela ganância do poder, divididos pelo presunção do
querer, da propriedade. Criamos e erguemos muros em todo o lado. Ainda hoje,
enquanto caminhava, reparava nos muros que as pessoas teimam em construir para delimitar
o que lhes pertence, como se alguém roubasse a terra, como se alguém conseguisse
levar um terreno de um lado para o outro. Temos medo da violência, mas não
conseguimos perdoar o próximo. Temos de ser assaltados, mas compramos cada vez
mais coisas para mostrarmos aos outros que detemos também esse mesmo valor
material. Temos medo dos julgamentos, mas continuamos a não ter auto-estima.
Temos medo da solidão, mas continuamos a tartar mal os outros, a ser egoistas,
a fechar os olhos à violência domestica, a abandonar os filhos, e
ausentarmo-nos da educação dos filhos, e a não sabermos amar sem esperar o que
o outro possa sentir. Temos medo de morrer, mas continuamos a alimentar os
vicios, a poluição, a destruição do Planeta, a sermos indiferentes aos reais
problemas do mundo, como se ele não fosse também nosso problema, a estarmos distantes
uns dos outros, a culparmos os outros do nosso sofrimento.
Tudo falta de consciencia individual.
Mais vale alguém pensar por nós, do que pensarmos de verdade.
Sabem, durante várias vezes eu li livros
de auto-ajuda. Procurava respostas, sei lá, saidas… e todos dizem a mesma
coisa… está tudo dentro de nós. Só temos de escavar no nosso poço, e descobrir…
por isso, todos sabemos, de facto, onde está a resposta.
O rio está lá, e os muros só cairão se
quisermos. A Vida? Essa vai sempre continuar, como sempre o fez.
Muitos poços já foram escavados e muitos
já se juntaram pelo mesmo rio. Grato a todos os que me tem ensinado nesse
sentido. Grato pelas lições de que mais vale padecer tentando, do que existir
sem viver, apenas sobrevivendo sem consciencia…aparentemente vivendo.
Escavem. Sonhem. Descubram. Mesmo que
doa, façam-no.

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