Conto Oriental
“ Um filho da Deusa,
a brincar, sem querer arranhou um cachorrinho. Quando voltou para casa, correu
para a sua mãe para lhe dar um beijo. Ao aproximar-se do bel rosto da Deusa,
reparou que tinha um arranhão que lhe sulcava a face.
-
Mãe – disse
o menino – tens uma ferida na bochecha, o que aconteceu?
Com o olhar terno e
amoroso, a Deusa contemplou o filho, e com a voz tingida de melancolia, disse:
-
É um
arranhão que me fizeste com as unhas.
-
Mas, mãe
– apressou-se a replicar o rapazinho – nunca me atreveria a magoar-te. Não há
ser que ame mais do que a ti, minha querida mãe. – Um sorriso desenhou-se nos
lábios da Deusa.
-
Meu filho
– disse – já te esqueceste que hoje de manhã arranhaste um cachorrinho?
-
Não, mãe,
lembro-me muito bem. Não sei como, arranhei-o, é verdade.
-
Ora, meu
filho, não sou eu toda a criação? Ao teres arranhado o bichinho, estavas a
arranhar-me a mim. Cuida-te de nunca ferir nenhum ser vivo, ou estarás a
ferir-me a mim”
Quando adquirimos uma
visão clara, apercebemo-nos de que toda a forma de vida é sagrada e deve ser
respeitada. Visto que uma grande parte dos seres humanos se encontram num
estado de minoria espiritual e emocional, não só não respeitam as outras
criaturas como lhes infringem dor de forma indesculpável. O comportamento de
muitos seres humanos em relação aos outros e em relação aos animais indefesos é
verdadeiramente vergonhoso e atroz, e põe em evidência quão pouco evoluímos
interiormente, por mais que a técnica tenha avançado. Se o homem de há 300 000
anos caísse no mundo actual e assistisse à forma brutal como nos comportamos
despreocupadamente, ficaria aterrorizado.
Ramiro Calle, in Os
Melhores Contos Espirituais do Oriente

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