Os muros erguidos, estão cada vez mais altos.O grito
de Socorro é cada vez mais mudo.O próximo tornou- se alheio.
Há 25 anos que caiu um dos
principais muros, quer físicos, quer psicológicos. A existência do muro de
Berlim era a inversão da utopia para um mundo melhor. A separação de dois lados, onde as pessoas
estavam afastadas dentro da mesma cidade, criava a onda de uma gaiola cultural,
onde uns viviam do lado de fora e outros, prisioneiros dentro das grades. Mas
já estava escrito que todos eram iguais à nascença, defendido que todos tinham
o direito à vida, fosse qual a raça, a cultura, ou a língua. E com o derrubar
deste obstáculo pensou-se termos aberto a porta das gaiolas, e deixamos sair
todos os pássaros que mereciam a liberdade. Todos gritaram por esses recantos
mundiais, em várias línguas, os sons da liberdade, da prosperidade
multicultural que já tanto se desejava, da fraternidade entre povos e da
amizade entre crenças.
25 anos. O tempo ditou ser a
controvérsia da utopia. Ele dita sempre ser uma espécie de mau da fita, um
espoliador de liberdades singelas, e um criador de gaiolas, cada vez mais intransponíveis
e indestrutíveis. O tempo criou o futuro. Uma palavra que existe desde a
criação do próprio tempo, mas que os homens da geração de há 25, 30,40 anos
atrás, se esqueceram da sua presença. O futuro é construído através das
vontades, do trabalho de colocar em prática os sonhos que se desenham no
pensamento. Não é uma mera circunstância de um feito alcançado hoje, no
presente. O Infante D. Henrique não olhou, do alto da ponta de Sagres, o
horizonte longínquo todo ele mergulhado em água, e apenas pensou que pela
circunstância de colocar naus a navegar, outros mundos havia de conquistar. Ele
colocou sim, em prática, no trabalho árduo e sofrido, com lágrimas, suor e dor,
mortes à mistura, e muita incerteza, os sonhos em construção. Não desistiu
enquanto não alcançou o feito de atravessar o que a vista alcançava, mas que o
sonho trespassava ilimitadamente. E
chegou lá. Bem ou mal, mas chegou. Ele e todos os que o seguiram.
25 anos depois da queda do
muro de Berlim, nós fomos construindo mais e mais muros, gaiolas onde não
colocamos mais ninguém, senão a nós mesmos. O mundo está dentro da sua própria
gaiola. 25 anos depois as culturas estão mais separadas, em vários casos, do
que unidas. Veja-se o problema ad eternum
do Médio Oriente, onde os povos não conseguem encontrar uma solução, uma via
onde o futuro, a tal palavra esquecida, possa fazer sentido. E de longe, o mais
longe possível, os ocidentais, do alto da sua gaiola, empunhando uma liberdade
hipócrita, fazem juízos gratuitos do que se passa lá longe, bem longe...quanto
mais longe melhor, pois melhor será o julgamento, e menor será o perigo de
envolvimento. E lá, onde os homens caem sob a lápides da história, lá onde as
crianças perdem o caminho do futuro, lá onde as mães gritam pelos filhos que
partiram, lá onde os homens se matam por uma história, um odio ancestral, por
uma religião sem misericórdia ou pela pura e crua vingança de uma disputa
territorial... lá, eles constroem muros cada vez mais altos, onde os gritos de
socorro são cada vez mais mudos, com os ocidentais cada vez mais alheios... mas
presunçosos da razão. Tudo porque, supostamente, vivem num mundo onde se
derrubou um muro entre consciências e se libertaram filosofias.
25 anos depois, o homem
perdeu a noção de que ainda persistem muitos dos muros que existiam nesse
tempo, já longínquo. Mais um. O da fome e das guerras em África. O mesmo tom, a
mesma miséria intelectual, o mesmo vazio, e a mesma distancia prepotente de um
Ocidente que se diz sem preconceitos. Mas di-lo dentro da sua gaiola. Em África
apenas um homem conseguiu, por momentos, derrubar mesmo um dos maiores muros do
século passado, Nelson Mandela. O muro da vergonha. Quis dizer e disse-o, apesar
de podermos ser diferentes na cor, somos iguais na existência. Não é uma pele
que nos define, mas sim uma consciência. Foi essa a lição que ele nos deixou
como legado. E o que mudou? Muito pouco. Porquê? Porque um homem pode mudar uma
pedra, mas é necessário uma sociedade para mudar a montanha. Não existem Deuses
de um qualquer Olimpo, que virão em defesa do homem, para o salvar. É o homem
que tem de o fazer. Mas para isso tem de procurar derrubar os muros invisíveis
ao olhar, mas demasiado visíveis ao pensamento.
Vivemos numa suposta
liberdade. Apenas suposta. Porque ela não existe fora de nós. Ela só pode
existir dentro de cada um. Por isso Mandela sobreviveu num pequeno espaço
durante tantos anos, porque a sua liberdade sempre fora maior do que o espaço
físico em que habitava o seu corpo. O liberdade está no pensamento, na consciência, na criação da
individualidade como existência própria. Não como ego, mas como individuo, de
dentro para fora.
25 anos depois vivemos numa
gaiola de juízes, presos a conceitos alheios, pré-definidos. É difícil pensar.
Pensar doi. O conhecimento doi. Sempre existirá dor nele, porque é dele que vem
as respostas, logo o vermos as grades que nos rodeiam faz doer. Vivemos na
gaiola do preconceito. O ego é preconceituoso, até consigo próprio. A própria piedade é preconceituosa. O ensinar
a pescar é mais livre do que o pescar pelo outro. Vivemos na gaiola da
tecnologia. Criamos novos conceitos de vida, de comunicação, de procura pelo
prazer de conhecer, pela divulgação da informação...etc, etc... tudo para
vivermos cada vez mais distantes uns dos outros, para deixarmos de sonhar, para
deixarmos de lavrar a terra onde nasce o conhecimento, a Natureza, a Vida em si
mesma. E supostamente essa tecnologia seria para libertar mais o homem, o
tornar mais disponível aos outros...sim, mas disponível virtualmente, e por
vezes numa real mentira existencial.
Mas há aqueles que vivem, de
facto, fora da gaiola. Aqueles que perceberam que os muros mais perigosos são
os silenciosos, aqueles que descobriram que não crescem com espinhos nos
sentimentos, nem com sangue e raiva no pensamento. Apenas se cresce com uma consciência
própria, uma liberdade interior e asas para voar a construir o futuro. Souberam
e perceberam assim que os muros formatam as consciências e as destroem
silenciosamente. Esses perceberam a palavra, que o dia seguinte seria
diferente, que mesmo havendo hoje alegria, amanhã pode haver lágrimas, mas é
esse o caminho. Independente do que nos separa, o que nos une é mais forte, a
simplicidade de apenas existirmos no presente. Só assim se conseguirá abrir
mesmo a porta da gaiola, que vive dentro de cada um de nós. Esses que o
perceberam caminham, lutam, mas apenas conseguem, cada um, desviar uma pedra de
cada vez. E não são alheios à verdade do mundo. À real verdade da Vida.
Até quando a surdez cultural,
racial, filosófica, política e linguística irá permanecer na maioria de nós?
Até quando os gritos de socorro serão abafados e os próximos serão alheios a
isso? Até quando as Gaiolas, zonas de conforto, muros invisíveis, irão permanecer
neste mundo esquecido do real significado da palavra futuro?

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