Carta ao senhor Costa.
Sr. Costa,
Hoje dirijo-me a si, nestas parcas palavras, com o intuito
de tentar perceber afinal o que se passa nestas suas atitudes.
Poderia tentar percebê-las através de um qualquer ato
heroico, qual Dom Sebastião que surge do meio de um nevoeiro matinal. Mas por
mais que tentasse desenhá-lo nesse feito, ele acabava sempre por se desmoronar.
Porquê? Porque atos verdadeiramente notáveis são de quem, logo à cabeça, sabe o
que está, nem que seja minimamente, a fazer.
Eu sei, eu sei, vai dizer-me que sabe o que está a fazer.
Acredito, quer o poder, quer ser primeiro-ministro de Portugal, custe o que
custar a este país e a este povo. Ai tem razão, sabe o que faz. Mas atos
heroicos tem sempre o objectivo de realizarem o bem comum, de defenderem o bem
estar geral, e aqui apenas falamos do seu bem estar e dos seus camaradas que se
colam a essa sua demanda pelo poder.
Sabe Sr. Costa, sou português. Daqueles que habitam o mundo
ilusório, e quase surreal de uma classe media, mas do mundo privado. Não sei se
o senhor sabe que mundo é esse. A classe média do mundo privado. Eu
esclareço-lhe. É aquele que, neste país à beira mar, está constitucionalmente
ligado aos deveres. O dever de pagar impostos, o dever de nunca fugir a eles, o dever de ter sempre
os seus compromissos em dia, o dever de contribuir para uma segurança social
falida e insustentável, o dever de lutar todos os dias pelo seu posto de
trabalho, responsavelmente, para que não seja um dos escolhidos a fazerem parte
dos desempregos deste país; sou daqueles que tem o dever de contribuir para, em
suma, pagar este país. Claro que não sou o único, é verdade. Existem os do
mundo publico. Todos eles tem o meu máximo respeito, os que de facto trabalham
claro. Os outros, independente de tudo, não tem o meu respeito, porque não me
respeitam enquanto simples empregados e não trabalhadores (haja honestidade em
usar esta palavra e fazer esta distinção). Mas isso, como diz o povo, são
outros rosários.
Onde eu quero chegar e falar é do senhor. Que eu saiba, o
seu percurso é todo político, sem grandes, ou mesmo nenhum, contorno de
trabalho sério e fora dos rounds político-partidários. Pois bem, o senhor
sempre viveu dentro da redoma do partidarismo e do mundo dos direitos.
E penso ser essa ideia que detém, neste momento em que teima
a todo o custo, ser primeiro-ministro de Portugal. Ok, perdeu as eleições de
forma vergonhosa, foi fustigado pelo sufrágio nacional, mas ainda assim, tal
Messias que só acredita em si mesmo, acha que deve, por DIREITO moral, ser
aquele que pode nos tirar do lodo.
Vejamos um facto. Constitucionalmente pode constituir um
governo, com maioria parlamentar? Claro que pode, se juntar o numero
maioritário de deputados, independente dos partidos, pode. É legal, logo
possível. Mas a pergunta que se impõe? É honesto a forma como o está a fazer?
Não, e o senhor sabe-o bem.
O seu partido tem uma espinha dorsal política, económica,
social e filosófica. Nela, que eu saiba, não estão inscritos nenhumas
orientações marxistas, leninistas ou maoístas. As mesmas que fazem parte da
espinha dorsal dos partidos com quem se quer aliar... apenas com um propósito,
o de ter o poder. Ah, mas é pelo bem de Portugal? Claro, de um Portugal que não
existe, ou melhor, existe apenas para os que, como o senhor, acham que só
existem DIREITOS. O direito ao subsidio gratuito e irresponsável, o direito à
greve gratuita... sim gratuita, porque eu questiono-o, porque é que após as
eleições, e perante a forte hipótese de um governo altamente ligado aos
sindicatos, deixou de haver greves nos transportes, convocações de plenários de
trabalhadores, etc, etc? Foi porque o mundo virou-se do avesso e as soluções
milagrosas surgiram? Não, foi porque o (des)governo dos DIREITOS está para se
formar. Porque é que os lesados do BES (e com total respeito por todos aqueles
que sofrem imenso com este processo), mas aqueles que tanto barulho fizeram nos
últimos dias de campanha, de repente, desapareceram? Sabe me dizer...
Mas voltemos aos DIREITOS. O seu mundo, o do direito a
apoios desmesurados e sem contributos, a uma segurança social que nem o senhor
sabe como a vai solucionar, a um SNS totalmente gratuito e sem ninguém para o
alimentar...no fundo, o seu país, aquele que deseja ser primeiro-ministro, é o
do venha a mim o vosso reino, e o Costa é fixe... um velho termo muito usado
pelas bandas do Rato.
O senhor está a usurpar a Democracia. Não pela legalidade
constitucional, mas pela ideologia. O senhor é um usurpador ideológico. O
senhor acorda com uma ideia, a meio da manhã ela já foi substituída por outra,
que morre após o almoço, para a seguinte já não ter grande futuro antes do chá
das cinco da tarde. Afinal, uma pergunta muito objectiva, senhor Costa, o que
pretende para Portugal?
Derrotar a direita?
Acabar com o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas?
Acabar com a Austeridade que o seu partido trouxe para
Portugal?
Acabar com o empobrecimento, que os seus possíveis parceiros
de coligação, tanto adoram alimentar através de um empobrecimento mental e
filosófico? Sim, aconselho-o a ler mais e ver os factos que a história mostra. Exemplo:
subsidiar os pobres não é respeitá-los, é sim habituá-los a serem pobres. Mas
afinal vocês sempre preferiram em dar a cana, pescar e comer o peixe dos
pobres, não é? Pena que eles nunca repararam, senão...
Mas voltemos ao que interessa. o usurpar ideológico. O
senhor defende, como aqueles que tanto desejam dominar o país desde 1974, que
agora que tem uma maioria de esquerda, o povo mostrou o seu desejo de mudar o
panorama político. Pois, sempre achei graça a mais um DIREITO existente neste
país. O direito a ser democrata. Só o é aquele que vota no socialismo, no
marxismo, na dita esquerda. Quem é de direita, liberal, etc... é facista,
neo-liberal, anti-patriótico, e ilegitmo. Pena é que a sua democracia e dos
seus possíveis futuros camaradas de coligaçãoo, não seja a mesma que defende o
total respeito pela individualidade e pensamento de cada um.
Primeiro, e deixe-me rever alguns conceitos senhor Costa,
talvez nem tenha conhecimento deles. Facista é sinónimo de radical. Seja de
direita ou de esquerda. Ponto final. Neo-liberal é sinónimo de liberdade, de um
Estado mais magro, de mais economia de mercado, de mais liberdades e responsabilidades
individuais, de uma equidade entre direitos e deveres... deixe-me ver...não,
Portugal nunca chegou ai, então nunca tivemos um governo neo-liberal, nem nada
parecido...e depois legitimidade de governar...pois goste-se ou não, o partido
que tem maior representação parlamentar é o PSD, logo é ele que deve formar
governo. Ponto final. Afinal, pergunto, que mal tem a direita, ou a suposta
direita, em Portugal? Porque deseja assim tanto derrubá-la, a todo o custo?
Sendo ela até, ideologicamente, muito parecida com a ideologia defendida pelo
seu partido? Penso que o PSD está mais próximo do PS do que do próprio
CDS...porque este ultimo nem é carne nem é peixe, é Portas, que não dá em nada
no fundo... assim como Catarinas e os demais Jerónimos, quais cavaleiros
demagógicos de um País, um Estado, um Direito.
Afinal o que quer o senhor para Portugal? É que escuto as
suas palavras, as suas oratórias, e nunca ouvi o senhor explicar de facto, o
que deseja para Portugal, enquanto país? Só ouço falar na direita, na direita,
na direita. Ah, e em Estado, em Estado, em Estado... mas o país é muito mais do
a direita e o Estado. O país são as pessoas que contam o seu dinheiro todos os
dias, são as pessoas que acordam muito cedo e muito tarde se deitam, são as
pessoas que procuram vidas melhores, pessoas que pensam, sonham, tentam ser
inovadoras, procuram o saber, trabalham, são honestas...que merecem todo o respeito
da parte daqueles que pensam que a vida afinal é um rol de DIREITOS.
Pois termino dizendo-lhe um direito e um dever.
DIREITO: pensar.
DEVER: a ser sério, honesto e ideologicamente verdadeiro.
Por isso, senhor Costa, defina-se, que a paciência não deve deveres
ao direito da usurpação.
P.S... já agora leve meia dúzia de notas para a leitura do
seu serão...
Não é a consciência
do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe
determina a consciência.
A história repete-se,
a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.
As ideias são muito
mais poderosas do que as armas. Nós não permitimos que os nossos inimigos
tenham armas, porque deveríamos permitir que tenham ideias?
Josef Estaline
E agora...
Liberdade
significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.
J. B. Shaw
O maior mal do
mundo não é a pobreza dos desafortunados, mas a inconsciência dos
privilegiados.
Padre Lebret
O país onde o comércio é mais livre será
sempre o mais rico e próspero, guardadas as proporções.
Voltaire
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