domingo, 1 de novembro de 2015

Com(paixão).




Compaixão.
Essa palavra tão badalada nos últimos tempos da modernidade.
Essa expressão que tantos nos diz, enquanto seres pensantes e sensitivos.
Essa sensação que procuramos em nós pelos demais…pelos outros que nos rodeiam, pelos animais, pelas plantas, pelo planeta.
A compaixão que nos impele a olhar para as vitimas, para a destruição, para a fome, o sofrimento, a dor, a violência, para as guerras, para os confrontos, com um olhar padecido de compreensão, procurando perceber porque é que um mundo, uma vida, uma existência permite a diferença abismal das coisas.
Vivemos tempos em que as frases fáceis, os pensamentos gratuitos, as filosofias inundaram a internet, as redes sociais e os mails, diariamente. Anda-se com livros de baixo do braço, cheios de aforismos de Oscar Wilde, ou sites próprios de frases rodeadas de sentimentos, sensações e temas profundamente tocantes. Enviam-se mails com imagens de locais idílicos e com frases certas para o destinatário certo. 
Precisa-se de uma frase alheia para exprimir a amizade, um amor, para dizer que se está apaixonado; um texto para traduzir uma dor, uma perda; de um pensamento para mostrar uma maturidade, um crescimento. Uma foto, um artigo, uma reportagem em que se mostre uma lágrima, uma desgraça, uma pessoa inspiradora. Partilham-se vídeos, livros de auto-ajuda, fomenta-se a procura de ideias que possam mudar a vida num estalar de dedos. 
Temos programas nas televisões sobre a ajuda, sobre o voluntário, o amor pelo outro. Temos reportagens de largar uma compaixão desnudada de egos, despojada de orgulhos. 
Certo dia no meu passado recente, sentado à beira do abismo, num rochedo que abraça o mar, olhava inospitamente o horizonte. De tantos pensamentos que corriam a minha rede cerebral, construiu-se uma questão algo inquietante, e deveras enigmática. Por quem sinto compaixão, e porque sinto compaixão?
Viajei nesse mesmo instante até aos profundos do meu ser, assaltando-me de leve, mas em esforço, rasgando-me pornograficamente o meu intimo. Sentia-me confrontado com um desconforto. Uma espécie de faca aguçada que ia lambendo-me o sangue e expondo-o. Expondo-o a olhos, os meus que tão pouco queriam ver. Desejavam o mais simples, o mais facil, aquilo que seria sempre mais simples de pensar. Que a compaixão que sinto pelos outros e por tudo o que me rodeia, é apenas fruto de uma vontade de fazer o bem, de o praticar até à exaustão. 
Mas fiquei em choque. 
Afinal não é essa a expressão visível da compaixão.
Ela existe em mim não pelos os outros, pelos demais, mas por mim.
Eu apenas sinto compaixão por mim.
Eu apenas procuro a compaixão por mim.
Sentimento impregnado na minha mente, no meu ego, pelo agradar ao  outro, pela forma simbólica de me esconder, e desculpar, de ter um lado mau, de possuir um padrão agressivo, subvertido, abominável. Em choque com as minhas convicções, com as minha personalidade de pessoa de bem.
Olhei o mar, que vinha e ia. Ele traduz afinal tudo o que existe. Que não existe bem nem mal. Que não existe nenhuma fronteira entre a pratica do bem e do mal. Não existe nenhum mecanismo que desperte um lado ou o outro. Porque não existem lados. Existe apenas o que é. Nada mais. O mar dá e tira. A vida dá e tira. Os caminhos dão e tiram. Todos os animais, todas as plantas, todo o ser, dá e tira. Eu dou e tiro. Mas, pelos padrões modernos e as culturas ocidentais, não nos perdoamos de tirar, logo procuramos muito a necessidade de dar. Logo procuramos a compaixão em nós, para satisfazer essa lacuna silenciosa que habita em nós. Mas é de nós que temos compaixão, é dessa compaixão que necessitamos. 

Significado de Compaixão
s.f. Sentimento de pesar que nos causam os males alheios, bem como uma vontade de ajudar o próximo. 
Sentimento de simpatia ou de piedade para com o sofrimento alheio, associado a vontade ou ao desejo de auxiliar de alguma forma: doar dinheiro para campanhas humanitárias é uma atitude que envolve muita compaixão.

Sentimento de pesar. Por quem? Por nós próprios. 
Porquê? Porque não me sinto feliz, realizado por completo, amado no meu todo.
Pelo males alheios? Sim. Pelos males que o ego, o orgulho, a mente, que pensamos ser alheio a nós mesmos, nos faz sentir. Mas que somos nós que fazemos a nós mesmos. 
Vontade de ajudar o próximo? Sim, claro. 
Porquê? Porque nos alivia o peso da dor. Porque nos projecta nos outros. Porque de facto quem desejamos ajudar somos nós, mas negamo-lo piamente. Aliás, certamente que o primeiro pensamento que virá à sua mente, caro leitor, é que não se revê nestas palavras, nesta ideia, afinal até está bem resolvido. Estará mesmo? Porque é que sente a necessidade de se justificar perante elas?
Simpatia, piedade ao sentimento alheio, associado a vontade ou desejo de auxiliar de alguma forma? Claro. Precisamos de acções externas a nós para desviarmos o que nos aprisiona interiormente. Logo as frases, a necessidade de expormos aos outros o que fazemos pelos outros, a necessidade de partilharmos as acções, as lutas, as demandas. 

No fundo, vivemos uma era moderna e contemporânea. Mas talvez estaremos a viver a maior era das prisões. Estamos aprisionados como nunca o estivemos na historia da humanidade. Estamos presos ao maior dos cárceres. À solidão. À falta de amor próprio. Mas a pior, à falta de identidade própria. Não sabemos quem somos, o que somos, e como devemos ser.
Procuramos a felicidade que sentimos nunca alcançar.
Procuramos a realização que sentimos nunca alcançar.
Procuramos a pessoa ideal que sentimos nunca conseguir conhecê-la de facto.
Procuramos o caminho certo que sentimos nunca o encontrar.
Procuramos o Deus perfeito, que nunca chegamos a conhecer.
Procuramos a razão certa de viver, que sentimos nunca perceber.
Mas afinal, em conclusão, o que procuramos? Nós próprios.
Todos os conceitos atrás referidos não existem. Esse é dos outros choques que a compaixão por mim me trouxe. Não existe o conceito de felicidade, não existe o conceito de realização pessoal, não existe a pessoa ideal, o Deus perfeito, o caminho certo, a razão certa. Tudo isso não existe.
Porque? Como é possível proferir tal ideia?
Porque isso são apenas imagens, padrões que se desenharam na mente, desculpas que se esculpiram no homem, para que exista uma suposta vontade de se fazer, de se executar algo. Mas nada disso existe, porque por mais que se faça com esse intuito, menos se sente, menos se encontra. Mais o mundo anda perdido, mais o mundo vai em direcção de uma anarquia de sentimentos, de conceitos. 
Mas então o que existe?
Nós, cada um, individualmente seres existentes, parte integra de um todo, que funciona assim, integrado no todo. E tudo o que se procura?… Sim, está tudo num só sitio. Individualmente dentro de cada um. Sim, já se sabe disso tudo, claro, por se saber isso mesmo, é que sempre se defendeu tal, sempre se apregoou tal, mas e estaremos mesmo a ver, sentir e a viver isso mesmo? Não. Porque os conceitos atrás mencionados continuam a ser a procura do homem. Sinal máximo que ele se procura, que ele procura saber quem é afinal. Logo, não aceita quem é. Por isso a necessidade sentir compaixão… mas por si mesmo.
Muitos negam que não sentem compaixão por si próprios. Juraram de morte que o que fazem é pelos outros, é para transformar o mundo, as consciências, o futuro de todas as gerações. Pois eu digo que o que fazem é apenas por si próprias, pela necessidade de se mostrarem vivos, de partilharem essa mesma vida, essa mesma existência. A necessidade de gritarem bem alto que estão cá, que amam, que se preocupam, que aceitam, que se resignam. Logo precisam de exemplos, de heróis, de frases e ideologias de fora para conduzirem o seu interior.
Quem de facto já aceitou a compaixão por si próprio, não tem necessidade de se mostrar. Faz apenas, executa naturalmente, sem ter que se mostrar, sem procurar protagonistas, sem ter a piedade pelos outros, porque já executou a pena no seu consciente, agora apenas sente o impulso, a vontade de simplesmente fazer o que sente que tem de fazer. E sabe que o mundo só se transforma de uma maneira, muda-te que mudarás tudo o que te rodeia. Os outros, eles existem apenas, não são resultado, o julgamento, a viabilidade de algo acontecer. Afinal, sabe em conclusão, a origem da palavra. Resultado da junção de duas palavras... Com Paixão. 

Descobri que temia a compaixão por mim. Mas o meu estado de choque vai dando lugar à aceitação. Aceitar essa compaixão por mim. Aceitar que afinal na vida os padrões são demasiado simples, tudo vem do pó e ao pó regressará… e entretanto? Entretanto só existe um caminho, viver... Com Paixão.  Será assim tão difícil? 

“Só serei livre no dia em que libertar-me das algemas de ser quem devia ser. Os outros não existem por mim, são meras figuras que existem em mim.”

Carlos Almeida.

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