Li ontem, através do Expresso online, um texto de Nicolau Santos, intitulado “ O menino que Gaspar não conhece”, onde fazia referência a uma senhora que só tinha 70 euros e a conta do supermercado apontava 84 euros. Teve de fazer escolhas, entre as quais, um pacote de bolachas que o seu filho pedia encarecidamente para levar. E depois de muita insistência do pequeno e de negas da mãe, visto que o “dinheiro” não chegava, uma senhora na fila da caixa, caridosamente disse que pagava as bolachas ao pequeno. Segundo Nicolau Santos, e passo a citar:
“A pobreza de quem nunca pensou que um dia ia ser pobre enche de vergonha e pudor os que a sofrem.
Tenho a certeza que o ministro Vítor Gaspar não conhece este menino, o que seria obviamente muito improvável. Mas desconfio que o ministro Vítor Gaspar não conhece nenhuns meninos que estejam a passar pela mesma situação. Ou se conhece considera que esse é o preço a pagar pelo famoso ajustamento. É isso que é muito preocupante. “
Este texto é apenas mais um, entre muitos, dos exemplos do provincianismo fútil e pretensioso que o Politicamente correcto tem em Portugal. De facto, estes jornalistas, pensadores, senhores que escrevem e descrevem o Portugal, deviam era deixar as suas cadeiras de secretárias, e darem “corda aos sapatos” (perdoem-me a velha expressão portuguesa), e irem descobrir o verdadeiro Portugal, o profundo.
O país onde existem misérias desde que existem governos, onde existem pessoas com pouco para comer desde que fizeram o 25 de Abril, onde existem pessoas necessitadas de um carinho, um sorriso ou apenas uma mão que as ajude, desde que existe a Republica, onde existe misérias desde que existe país… mas onde, no passado, ninguém quis saber se alguém, de facto, assim existia.
Parece que certas pessoas, só agora, que o país bateu no fundo, acordaram para a realidade. Parece que muitos daqueles que tem responsabilidades cívicas de informação e esclarecimento publico, vem agora como os “velhos do Restelo”, ditarem as suas sentenças de morte anunciada, quando nos tempos em que a faca já matava o “porco”, riam-se e deliciavam-se com uma certa sumptuosidade de quem pensava que o país prosperava e enriquecia. Parece que muitos dos portugueses viveram, hibernados, dentro da caverna platónica, e agora, assustados, cegos pelos anos de falácia de governação, espantam-se com momentos de caridade e de uma dita pobreza, a mesma que procuram e quase querem impor, por força de arranjarem militantes para a realização da sua “nobre” (hipocritamente) façanha de salvar Portugal.
Sejam honestos, pelo menos uma vez na vida. Ser honesto é deixar de enganar as pessoas com estiradas ideológicas demasiado patentes, apenas para deixar em aberto no pensamento das mesmas, que afinal as velhas histórias de crianças, em que o “Bicho Papão” vem comer o pequeno, são verdadeiras.
O “Bicho-Papão” existe, de facto, chama-se Estado, composto por pessoas que na base das mesmas ideologias que este tipo de pessoa defende, levaram-nos até ao fundo do poço, ao sitio onde já não existe água, onde o dinheiro não chega para colocar um pão na mesa, onde o dinheiro não chega para enfrentar as necessidades que o País tem, e onde o dinheiro não chega para limpar as lágrimas daqueles, os pobres deste país, que vêem ser destruído o seu sonho de felicidade. E por isso o ajustamento. Não estou de acordo que este ajustamento seja o ideal, não estou de acordo com imensas coisas que este Governo tem feito, mas em primeiro lugar, não perdi a memória, não perdi o discernimento de quem nos trouxe até aqui, de quem apregoou a nefasta ideia de que o Estado Social é dar sem pedir nada em troca, é alimentar sem pedir responsabilidades, é ser-se fraterno sem se ser educador. Não me esqueço que quem nos trouxe até aqui foram os mesmos que esconderam a pobreza quando ela já existia, sim, ela não é dos dias de hoje, é de há muito tempo, e bastava terem andado pelo Verdadeiro Portugal, para verificarem que há muitos anos que pessoas vivem com imensas dificuldades, que pessoas tem de deixar de pagar as suas compras nos supermercados para conseguirem pagar as facturas das farmácias, há muitos anos que crianças desfavorecidas chegam às escolas sem pequeno-almoço e voltam para casa sem a esperança de um jantar reconfortante. Há muitos anos que pessoas não sabem o que é aquecimento, o conforto de um lar decente, de uma mesa apresentável.
Bastava que os ditos pseudo-intelectuais, da qual este país está repleto, os Politicamente Correctos, saíssem da Capital e fossem visitar o país real.
Um país real onde o desemprego é praticamente privado, onde a economia foi quase “nacionalizada”, através da formatação da ideia que o lucro para as empresas portuguesas passava por bons negócios com o sector Estado e não com o Sector privado, ou melhor ainda, com as exportações. Vivemos décadas fechados em nós próprios, de costas voltadas ao exterior… o mesmo que agora vem nos dar a mão. Pode, esse exterior, ter tido comportamentos menos saudáveis para connosco, no passado, mas as decisões sempre foram nossas… ou nas vossas casas quem decide foi sempre o “vizinho”?
Por isso, isto é apenas mais um dos muitos exemplos, de que a nossa verdadeira crise, não é económica, mas sim cultural e intelectual… e também de memória, porque pelo que vejo nas redes sociais e leio na maioria dos jornais, são poucos os que ainda se recordam das razões de estarmos a viver uma intervenção externa.
E concluo, apenas dizendo, que haja bom-tom e responsabilidade na forma como se abordam os temas em debate, haja respeito por quem, de facto, passa dificuldades, faz contas à vida, tem um pão para por na mesa. Deixem-se de razões e ideias faraónicas de querer, quase obrigando, mostrar a miséria deste país, para conseguirem engrossar as fileiras das manifestações, com a venda de uma falsa noção de busca pela felicidade, de um paradoxo fundamento de que este Governo é que criou a pobreza e a miséria… contribui para que ela possa aumentar, mas não a criou, ela foi criada pelos mesmos que agora surgem como hipócritas Salvadores de uma Pátria perdida.

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